# Manual Baldin de Rastreio

**As perguntas certas para rastrear TEA e TDAH em uma consulta de vinte minutos — e decidir com segurança se é caso de encaminhar ou conduzir.**

*Dra. Karen Baldin · Neuropediatra · CRM-SP*
*Clínica Neurodesenvolver · Santos-SP*

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> **Como usar este manual:** Abra no bloco de perguntas da faixa etária do paciente. Faça as perguntas durante a consulta. Use o Semáforo de Conduta ao final para decidir o próximo passo. Registre no modelo da última seção.

> **O que este manual faz:** rastreia sinais de TEA e TDAH com perguntas estruturadas por domínio clínico.
> **O que este manual não faz:** não fecha diagnóstico, não substitui avaliação multidisciplinar, não orienta laudo.

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## PARTE 1 — ANTES DE PERGUNTAR

### 1.1 O que a Anamnese Revela que o Exame Físico Não Consegue Ver

Em transtornos do neurodesenvolvimento, a clínica está no relato — não no tônus, nos reflexos ou no exame físico. A anamnese não é formalidade antes do exame: é o instrumento diagnóstico principal.

**Princípio operacional:** reposicione a anamnese como ferramenta ativa. As perguntas deste manual existem para que você colete informação clínica de qualidade em vinte minutos — não para preencher um formulário.

### 1.2 Rastrear ≠ Diagnosticar

| Rastrear (este manual) | Diagnosticar (próximo nível) |
|---|---|
| Identificar sinais de alerta | Confirmar com critérios formais (DSM-5) |
| Organizar a suspeita clínica | Escrever laudo funcional |
| Decidir encaminhar ou acompanhar | Comunicar diagnóstico à família |
| Documentar o rastreio | Montar plano terapêutico |

O recorte não é artificial — é o recorte clínico real entre **rastrear** e **diagnosticar e conduzir**.

### 1.3 Calibrando a Suspeita: Sinais de Alerta por Faixa Etária

Antes de abrir as perguntas, verifique se algum destes sinais está presente:

**Lactente (6–18 meses)**
- Não responde ao nome quando chamado
- Pouco ou nenhum contato visual espontâneo
- Não aponta para mostrar ou pedir
- Ausência de balbucio social
- Não imita gestos simples (dar tchau, bater palma)

**Pré-escolar (18 meses – 4 anos)**
- Atraso ou regressão da fala
- Não compartilha interesse (não traz objetos para mostrar)
- Brincadeira repetitiva sem função simbólica
- Dificuldade com mudanças de rotina desproporcional à idade
- Isola-se de outras crianças

**Escolar (4–8 anos)**
- Dificuldade persistente em manter amizades
- Interesses intensos e restritos
- Dificuldade de organização e planejamento incompatível com a idade
- Não consegue esperar a vez ou interrompe sistematicamente
- Desempenho escolar oscilante sem causa aparente

### 1.4 Para Ter T de Transtorno, Precisa Ter P de Prejuízo

A frase que muda a abordagem clínica. Perguntas sobre **prejuízo funcional** são tão decisivas quanto perguntas sobre sintomas.

- Sintoma sem prejuízo = variação do desenvolvimento. Acompanhar.
- Sintoma com prejuízo = sinal de alerta clínico. Investigar.

Essa distinção evita tanto o superdiagnóstico quanto o subdiagnóstico.

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## PARTE 2 — PERGUNTAS PARA SUSPEITA DE TEA

### 2.1 As Cinco Perguntas Essenciais

Independente do tempo de consulta, estas cinco perguntas não podem faltar quando há suspeita de TEA:

> **1. "Quando você chama o nome dele/dela, o que acontece?"**
> *O que revela:* Responsividade social. Crianças com TEA frequentemente não respondem ao nome mesmo com audição preservada. Atenção: resposta inconsistente é tão relevante quanto ausência de resposta.

> **2. "Como ele/ela brinca quando está sozinho(a)? E com outras crianças?"**
> *O que revela:* Qualidade da brincadeira — presença ou ausência de jogo simbólico, funcionalidade, e interesse social na brincadeira. Alinhar fileiras de objetos e girar rodas repetidamente é diferente de brincar de "fazer de conta".

> **3. "Ele/ela aponta para mostrar algo que achou interessante — não para pedir, mas para compartilhar?"**
> *O que revela:* Atenção compartilhada — um dos marcadores mais precoces e mais sensíveis. Apontar para pedir (protoimperativo) é diferente de apontar para mostrar (protodeclarativo). O segundo é o que interessa clinicamente.

> **4. "Como ele/ela reage quando a rotina muda — por exemplo, mudar o caminho da escola ou trocar a ordem do banho?"**
> *O que revela:* Inflexibilidade cognitiva e necessidade de previsibilidade. Respostas como "ele surta", "ela chora muito", "precisa ser tudo igual" merecem investigação.

> **5. "Isso que você está descrevendo — está atrapalhando a vida dele/dela no dia a dia? Em casa? Na escola? Com os amigos?"**
> *O que revela:* **Prejuízo funcional** — o critério que transforma suspeita em indicação de avaliação. Sem prejuízo documentado, o quadro é variação do desenvolvimento, não transtorno.

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### 2.2 Comunicação — Além da Fala

O domínio de comunicação do DSM-5 vai muito além de "fala ou não fala". Estas perguntas capturam comprometimento de comunicação sem usar jargão clínico.

**Perguntas para os pais:**

> "Ele/ela olha para você quando quer alguma coisa — ou pega a sua mão e leva até o objeto?"
> *O que observar:* Uso do adulto como ferramenta (pegar a mão e levar) versus comunicação intencional (olhar, apontar, vocalizar).

> "Quando você fala com ele/ela, ele/ela entende? Segue instruções simples como 'pega o sapato e traz aqui'?"
> *O que observar:* Compreensão receptiva — pode estar preservada mesmo com atraso expressivo, ou comprometida mesmo com fala presente.

> "Ele/ela usa palavras para pedir ou para conversar? Ou repete frases que ouviu — da TV, de músicas, de você?"
> *O que observar:* Ecolalia (repetição) versus linguagem funcional. Ecolalia pode ser imediata ou tardia, e nem sempre é patológica — o contexto de uso é o que importa.

> "Quando ele/ela quer te contar algo, como faz? Usa gestos? Expressões faciais? Ou fica frustrado(a) porque não consegue?"
> *O que observar:* Comunicação não verbal compensatória. Crianças típicas com atraso de fala geralmente compensam com gestos ricos; crianças com TEA frequentemente não.

**⚠️ Atenção clínica:** Atraso de fala isolado ≠ TEA. O que diferencia é o comprometimento da **comunicação como um todo** — verbal, gestual, facial, social.

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### 2.3 Interação Social — Além do Contato Visual

Fixar no "não olha nos olhos" como marcador principal é insuficiente e às vezes enganoso. Estas perguntas capturam reciprocidade social.

**Perguntas para os pais:**

> "Quando ele/ela faz algo que acha legal — um desenho, uma torre de blocos — ele/ela te mostra? Quer que você veja?"
> *O que observar:* Compartilhamento de interesse. Crianças com TEA frequentemente fazem atividades em paralelo, sem buscar compartilhar.

> "Na escola ou no parquinho, ele/ela procura outras crianças para brincar? Ou fica mais sozinho(a)?"
> *O que observar:* Interesse social ativo versus passivo. Algumas crianças com TEA ficam perto de grupos mas não interagem; outras se isolam ativamente.

> "Ele/ela imita o que as outras crianças fazem? Copia brincadeiras, gestos, expressões?"
> *O que observar:* Capacidade de imitação social — um dos precursores de aprendizagem social. Déficit de imitação é marcador precoce de TEA.

> "Quando outra criança chora ou se machuca, como ele/ela reage?"
> *O que observar:* Empatia e leitura emocional. Ausência de resposta a emoções do outro é relevante — mas atenção: algumas crianças com TEA demonstram angústia com choro alheio (hipersensibilidade), o que também é dado clínico.

> "Ele/ela consegue esperar a vez em jogos? Aceita perder?"
> *O que observar:* Reciprocidade em turnos e tolerância à frustração social.

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### 2.4 Comportamentos Repetitivos e Interesses Restritos (RRBs)

Como perguntar sobre RRBs sem que os pais interpretem como acusação.

**Perguntas para os pais:**

> "Tem alguma coisa que ele/ela faz sempre igual — um movimento, um som, uma sequência?"
> *O que observar:* Estereotipias motoras (flapping, balançar o corpo, girar), vocais, ou sequências rígidas.

> "Ele/ela tem algum interesse muito forte — mais forte do que o que você vê em outras crianças da mesma idade?"
> *O que observar:* Intensidade e exclusividade do interesse. O marcador não é o tema, é a fixação e o prejuízo que gera.

> "Ele/ela organiza brinquedos de um jeito específico — em fileira, por cor, por tamanho? E se alguém desarruma?"
> *O que observar:* Necessidade de organização rígida e reação a interferência no padrão.

> "Ele/ela tem sensibilidade a barulho, textura de roupa, cheiro de comida — algo que parece incomodar mais do que o esperado?"
> *O que observar:* Alterações sensoriais — hiper ou hiporreatividade. Podem impactar alimentação, vestuário, ambiente escolar.

**⚠️ O que distingue típico de clínico:** A criança típica também pode ter interesses intensos e preferências sensoriais. O que importa é: **a intensidade interfere no funcionamento?** Se a resposta é sim, é dado clínico.

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### 2.5 A Pergunta do Prejuízo

Este é o critério que transforma suspeita em indicação de avaliação.

**Para cada domínio investigado, feche com:**

> "Isso que você está me contando — está atrapalhando ele/ela em alguma área? Na escola? Em casa? Nas amizades? No sono? Na alimentação?"

**Como interpretar:**

| Resposta dos pais | Conduta |
|---|---|
| "Não atrapalha, é só jeito dele" | Variação do desenvolvimento. Orientar e reavaliar em retorno. |
| "Na escola a professora reclama, mas em casa é tranquilo" | Sinal de alerta — contexto escolar pode revelar dificuldade que casa compensa. Investigar mais. |
| "Atrapalha em tudo — casa, escola, com os amigos" | Prejuízo funcional claro. Indicação de avaliação especializada ou aprofundamento. |

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### 2.6 Cenário: Suspeita Forte, Pais Não Perceberam

Quando o médico já tem suspeita formada e os pais estão minimizando.

**Estratégia:** Não confrontar. Usar as perguntas para que os próprios pais descrevam os comportamentos — e então nomear o que foi descrito.

> "Você me contou que ele não responde ao nome, que brinca sempre da mesma forma e que tem dificuldade com mudanças. Esses são sinais que merecem atenção clínica. Isso não significa que ele tem um diagnóstico — significa que vale a pena investigar com mais profundidade para ter certeza."

**Evitar:** "Acho que pode ser autismo" (sem embasamento documentado) ou "Não se preocupe, vai passar" (sem rastreio feito).

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### 2.7 Cenário: Pais Chegam com "Diagnóstico" Prévio

Quando a família chegou com informação da internet ou de outro serviço sem laudo formal.

**Estratégia:** Validar a preocupação, retomar o controle clínico.

> "Entendo que vocês estão preocupados e que pesquisaram bastante. Vou fazer uma avaliação estruturada aqui no consultório para termos uma base clínica sólida — independente do que vocês já ouviram. O resultado pode confirmar, pode ser diferente. Mas vai ser baseado em evidência."

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### 2.8 Registro no Prontuário — TEA

Após aplicar as perguntas, registre:

```
RASTREIO CLÍNICO PARA TEA — [data]

Queixa principal: [motivo da consulta]
Idade: [X anos e Y meses]

Comunicação: [achados - verbal/gestual/facial]
Interação social: [achados - reciprocidade/imitação/compartilhamento]
Comportamentos repetitivos: [achados - estereotipias/interesses/sensorial]
Prejuízo funcional: [sim/não — em quais domínios: casa/escola/social]

Instrumentos aplicados: [M-CHAT, se aplicável]

Conduta:
[ ] Acompanhar em retorno em ____ (sem sinais de alerta no momento)
[ ] Encaminhar para avaliação especializada: _______________
[ ] Conduzir investigação no próprio consultório: _______________

Orientações dadas à família: [resumo]
```

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## PARTE 3 — PERGUNTAS PARA SUSPEITA DE TDAH

### 3.1 As Cinco Perguntas Essenciais

> **1. "Ele/ela consegue prestar atenção numa atividade que não escolheu — por exemplo, na aula, numa conversa, numa tarefa de casa?"**
> *O que revela:* Desatenção em contexto dirigido. Crianças com TDAH frequentemente mantêm atenção em atividades de interesse (videogame, tela) mas não em tarefas impostas. Isso não descarta TDAH — confirma.

> **2. "Ele/ela consegue ficar sentado(a) quando a situação pede? Na sala de aula, no restaurante, na espera do consultório?"**
> *O que revela:* Hiperatividade motora. Observar: mexer-se na cadeira, levantar, correr em momentos inadequados, dificuldade de esperar.

> **3. "Ele/ela fala ou age antes de pensar? Interrompe, responde antes de ouvir a pergunta toda, faz coisas impulsivas?"**
> *O que revela:* Impulsividade. Pode se manifestar como interrupção verbal, dificuldade de esperar a vez, decisões sem avaliação de consequência.

> **4. "Isso acontece só em casa? Só na escola? Ou nos dois lugares?"**
> *O que revela:* **Persistência transituacional** — critério fundamental do DSM-5. TDAH se manifesta em mais de um contexto. Se o comportamento aparece só em um ambiente, considerar fatores contextuais antes de suspeitar de TDAH.

> **5. "Há quanto tempo isso acontece? Sempre foi assim ou começou em algum momento?"**
> *O que revela:* **Persistência temporal.** TDAH é crônico — os sintomas devem estar presentes há pelo menos 6 meses e ter início antes dos 12 anos. Início recente sugere outra causa (ansiedade, trauma, mudança ambiental).

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### 3.2 Desatenção — Normal ou Clínica?

**Perguntas para os pais:**

> "Ele/ela perde material escolar com frequência? Esquece de levar coisas, de entregar tarefas?"
> *O que observar:* Padrão de esquecimento que impacta rotina, não episódio isolado.

> "Ele/ela começa atividades e não termina? Pula de uma coisa para outra?"
> *O que observar:* Dificuldade de sustentação da atenção — não é falta de interesse, é incapacidade de manter o foco mesmo quando quer.

> "Quando você dá uma instrução com dois ou três passos, ele/ela consegue seguir? Ou esquece no meio?"
> *O que observar:* Memória de trabalho — frequentemente comprometida no TDAH.

> "Ele/ela se distrai com coisas que as outras crianças nem percebem — um barulho na rua, alguém passando?"
> *O que observar:* Distractibilidade aumentada — estímulos irrelevantes capturam a atenção.

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### 3.3 TDAH na Menina — As Perguntas que a Consulta Padrão Não Faz

A apresentação feminina do TDAH é predominantemente desatenta e internalizante. O rastreio padrão (focado em hiperatividade e disrupção) frequentemente falha.

**Perguntas específicas:**

> "Ela parece 'no mundo da lua'? A professora diz que é 'sonhadora' ou 'quieta demais'?"
> *O que observar:* Desatenção internalizada — sem hiperatividade visível, mas com prejuízo acadêmico e social.

> "Ela demora muito mais do que o esperado para fazer tarefas simples?"
> *O que observar:* Lentidão de processamento como compensação — a menina tenta cumprir, mas gasta muito mais energia para manter o foco.

> "Ela é muito organizada em algumas coisas e completamente caótica em outras?"
> *O que observar:* Compensação seletiva — estratégias que mascaram o TDAH em áreas controláveis, enquanto áreas menos estruturadas revelam a dificuldade.

> "Ela fica ansiosa ou frustrada com frequência? Chora com facilidade diante de tarefas?"
> *O que observar:* Comorbidade emocional — meninas com TDAH têm taxas mais altas de ansiedade e sintomas depressivos do que meninos com TDAH.

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### 3.4 Hiperatividade ou Temperamento?

**Perguntas para os pais:**

> "Ele/ela sempre foi assim — desde bebê — ou isso mudou em algum momento?"
> *O que observar:* TDAH é constitucional; se o comportamento era diferente até dois anos atrás e mudou, considerar causas ambientais.

> "Isso acontece em todos os ambientes — em casa, na escola, na casa de avós — ou só em alguns?"
> *O que observar:* Temperamento difícil pode ser contextual; TDAH é transituacional.

> "Ele/ela consegue se acalmar depois de se agitar, ou precisa de muita ajuda externa para parar?"
> *O que observar:* Dificuldade de autorregulação — indicativo de TDAH quando combinado com outros sinais.

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### 3.5 Contexto: Escola, Casa e Sono

**Perguntas sobre escola:**

> "A professora já chamou atenção sobre o comportamento? O que ela disse exatamente?"
> *O que observar:* Relato da escola é dado clínico fundamental. Pedir relatório escolar quando possível.

> "As notas dele/dela oscilam muito — um mês vai bem, outro vai mal — ou são consistentemente baixas?"
> *O que observar:* Inconsistência é mais típica de TDAH do que desempenho uniformemente baixo.

**Perguntas sobre sono:**

> "Ele/ela tem dificuldade para dormir? Demora para pegar no sono? Acorda muito?"
> *O que observar:* Distúrbios de sono são comuns no TDAH e podem tanto mimetizar quanto agravar sintomas. **Sono ruim + desatenção pode ser só sono.** Investigar antes de concluir TDAH.

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### 3.6 TDAH ou Ansiedade?

As duas condições se confundem com frequência. Estas perguntas ajudam a separar.

| Pergunta | Se a resposta aponta para TDAH | Se a resposta aponta para Ansiedade |
|---|---|---|
| "Ele/ela não presta atenção porque se distrai ou porque está preocupado(a) com algo?" | Distrai-se com estímulos externos | Pensamentos intrusivos, preocupação |
| "Ele/ela é inquieto(a) porque tem energia demais ou porque está nervoso(a)?" | Energia motora constante | Agitação situacional, ligada a gatilhos |
| "Ele/ela evita tarefas porque são chatas ou porque tem medo de errar?" | Evitação por tédio/dificuldade de foco | Evitação por medo de falha/perfeccionismo |
| "Isso acontece o tempo todo ou piora em certas situações?" | Constante, transituacional | Piora com gatilhos específicos |

**⚠️ Atenção:** TDAH e ansiedade coexistem em 25–40% dos casos. Se ambos parecem presentes, registrar e não tentar separar artificialmente — encaminhar para avaliação completa.

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### 3.7 Registro no Prontuário — TDAH

```
RASTREIO CLÍNICO PARA TDAH — [data]

Queixa principal: [motivo da consulta]
Idade: [X anos e Y meses]

Desatenção: [achados — em quais contextos]
Hiperatividade: [achados — motora/verbal]
Impulsividade: [achados — comportamental/verbal]
Persistência transituacional: [sim/não — em quais ambientes]
Duração dos sintomas: [>6 meses? início antes dos 12 anos?]
Sono: [achados]
Prejuízo funcional: [sim/não — em quais domínios]

Diagnósticos diferenciais considerados:
[ ] Ansiedade
[ ] Distúrbio de sono
[ ] Fatores ambientais (mudança, trauma, conflito familiar)
[ ] Outro: _______________

Conduta:
[ ] Acompanhar em retorno em ____ (sem sinais de alerta no momento)
[ ] Encaminhar para avaliação especializada: _______________
[ ] Solicitar relatório escolar
[ ] Investigar sono (diário de sono / polissonografia)
[ ] Conduzir no próprio consultório: _______________

Orientações dadas à família: [resumo]
```

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## PARTE 4 — SITUAÇÕES CLÍNICAS ESPECÍFICAS

### 4.1 TEA + TDAH Juntos — Como Rastrear Sem se Perder

Quando as duas suspeitas aparecem simultaneamente:

**Regra prática:** comece pelo TEA. O rastreio de TEA é mais específico e, se confirmado, muda fundamentalmente a conduta. TDAH pode ser comorbidade do TEA — mas TEA nunca é comorbidade do TDAH.

**Sequência recomendada:**
1. Aplique as 5 perguntas essenciais de TEA
2. Se sinais de TEA presentes → complete o rastreio de TEA inteiro
3. Depois, aplique as 5 perguntas essenciais de TDAH separadamente
4. Documente os dois rastreios independentemente
5. Não tente separar o que é de cada um — encaminhe com ambas as hipóteses documentadas

### 4.2 Comorbidades Frequentes — Perguntas de Rastreio Rápido

Sem estender a consulta, inclua quando relevante:

**Ansiedade:**
> "Ele/ela evita situações novas? Tem medos que parecem exagerados para a idade?"

**Transtorno de oposição:**
> "Ele/ela desafia regras intencionalmente? Fica irritado com frequência, mais do que outras crianças?"

**Dificuldade de aprendizagem:**
> "Na escola, ele/ela acompanha em leitura e matemática — no mesmo nível da turma?"

**Alteração sensorial:**
> "Tem alguma coisa que ele/ela evita muito — barulho, textura, cheiro, movimento?"

### 4.3 A Criança de Dois Anos que Não Fala

A situação mais frequente e mais ansiogênica. Sequência de perguntas para esta faixa etária:

**Perguntas prioritárias (18–30 meses):**

> "Ele/ela aponta para pedir? E para mostrar?"
> → Protodeclarativo ausente = sinal de alerta para TEA

> "Ele/ela imita o que vocês fazem? Finge falar no telefone, dar comida para a boneca?"
> → Jogo simbólico ausente aos 24 meses = sinal de alerta

> "Quando você pede 'dá o sapato', 'mostra o nariz', ele/ela entende?"
> → Compreensão receptiva preservada com atraso expressivo = mais provável atraso de fala isolado

> "Ele/ela olha para onde você aponta?"
> → Atenção compartilhada ausente = marcador precoce de TEA

> "Ele/ela brinca com as outras crianças ou fica mais isolado(a)?"
> → Interesse social aos 2 anos é dado clínico relevante

**Regra clínica:** Se a criança não fala E não compensa com gestos, imitação e atenção compartilhada → o risco de TEA é significativamente maior do que atraso de fala isolado.

### 4.4 Quando Encaminhar, Quando Conduzir

Use o **Semáforo de Conduta** após completar o rastreio:

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## SEMÁFORO DE CONDUTA

### 🟢 VERDE — Acompanhar

**Critérios:** Nenhum sinal de alerta significativo OU sinais isolados sem prejuízo funcional.

**Conduta:**
- Orientar a família sobre marcos do desenvolvimento
- Agendar retorno em 3–6 meses para reavaliação
- Anotar no prontuário: "Rastreio sem sinais de alerta no momento. Reavaliação em ___."

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### 🟡 AMARELO — Conduzir no Consultório

**Critérios:** Sinais de alerta presentes em 1–2 domínios, com prejuízo leve, ou criança muito nova para rastreio conclusivo.

**Conduta:**
- Solicitar relatório escolar (quando aplicável)
- Aplicar instrumento padronizado (M-CHAT-R/F para <30 meses)
- Orientar estimulação direcionada
- Retorno em 30–60 dias para reaplicar perguntas
- Se na reavaliação os sinais persistirem ou aumentarem → passa para 🔴

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### 🔴 VERMELHO — Encaminhar

**Critérios:** Sinais de alerta em múltiplos domínios E/OU prejuízo funcional claro E/OU regressão de habilidades.

**Conduta:**
- Encaminhar para avaliação especializada (neuropediatra / psiquiatra infantil)
- Documentar os achados do rastreio no encaminhamento
- Não esperar "para ver se melhora" — intervalo de espera sem avaliação é prejuízo para a criança
- Orientar a família: "Estou encaminhando para investigar com mais profundidade, não para confirmar diagnóstico"

**Encaminhar para quem:**
| Suspeita | Encaminhar para |
|---|---|
| TEA | Neuropediatra ou equipe multidisciplinar em TND |
| TDAH | Neuropediatra ou psiquiatra infantil |
| TEA + TDAH | Neuropediatra com experiência em TND |
| Dúvida entre TEA e outros | Neuropediatra (diagnóstico diferencial) |

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### 🚨 VERMELHO URGENTE — Encaminhar Imediatamente

**Critérios:** Regressão de habilidades (perda de fala, perda de habilidades sociais já adquiridas).

**Conduta:**
- Encaminhamento urgente para neuropediatra
- Considerar investigação neurológica (EEG, ressonância quando indicado)
- Regressão é sinal de alarme — não esperar retorno

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## PARTE 5 — IMPLEMENTAÇÃO

### 5.1 Como Usar em Consultas de Vinte Minutos

Não é necessário aplicar todas as perguntas em uma consulta. Estratégia prática:

**Consulta 1 (20 min):**
- 5 perguntas essenciais (TEA ou TDAH, conforme a suspeita)
- Pergunta do prejuízo
- Semáforo de conduta
- Total: ~8 minutos de rastreio dentro da consulta regular

**Consulta de retorno (se 🟡):**
- Perguntas por domínio específico (comunicação, interação, RRBs ou desatenção, hiperatividade)
- Revisão do relato escolar
- Total: ~12 minutos focados no rastreio

### 5.2 Adaptação por Faixa Etária

| Faixa | Foco principal | Informante principal | Instrumento complementar |
|---|---|---|---|
| 6–18 meses | Marcos motores e sociais, responsividade | Pais | Observação em consulta |
| 18–30 meses | Linguagem, atenção compartilhada, jogo | Pais | M-CHAT-R/F |
| 30 meses – 5 anos | Brincadeira, interação social, RRBs | Pais + escola | Relatório escolar |
| 5–8 anos | Desempenho escolar, atenção, socialização | Pais + escola | Relatório escolar + SNAP-IV |

### 5.3 A Consulta Difícil — Pais Resistentes

Quando os pais ficam defensivos ou minimizam:

**Não fazer:**
- Insistir no diagnóstico antes de ter dados
- Usar termos como "autismo" ou "TDAH" prematuramente
- Dizer "eu acho que ele tem..."

**Fazer:**
- Usar as perguntas como ferramenta (não como interrogatório)
- Deixar que as respostas dos pais construam o quadro
- Nomear o que foi descrito sem rótulo diagnóstico: "Os comportamentos que você me descreveu merecem atenção clínica"
- Oferecer retorno como continuidade, não como ameaça

### 5.4 Perguntas para Consultas de Retorno

Na reavaliação, pergunte:

> "Desde a última consulta, mudou alguma coisa no que conversamos?"

> "A escola deu algum retorno novo?"

> "Aquele comportamento que você me descreveu — continua igual, melhorou ou piorou?"

> "Vocês perceberam alguma coisa nova que não tinham reparado antes?"

Compare com o registro da consulta anterior. Documentar evolução no prontuário.

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## MODELO DE REGISTRO COMPLETO

```
═══════════════════════════════════════════════════════
RASTREIO CLÍNICO — MANUAL BALDIN
═══════════════════════════════════════════════════════

Data: ___/___/______
Paciente: _________________________________
Idade: ___ anos e ___ meses
Informante: ______________________________

MOTIVO DO RASTREIO:
__________________________________________________

SUSPEITA PRINCIPAL: [ ] TEA  [ ] TDAH  [ ] Ambos

═══ RASTREIO TEA ═══
Comunicação:        [ ] Típico  [ ] Alerta  [ ] NA
Interação social:   [ ] Típico  [ ] Alerta  [ ] NA
RRBs:               [ ] Típico  [ ] Alerta  [ ] NA
Sensorial:          [ ] Típico  [ ] Alerta  [ ] NA
Prejuízo funcional: [ ] Não     [ ] Sim → Domínios: ___

═══ RASTREIO TDAH ═══
Desatenção:         [ ] Típico  [ ] Alerta  [ ] NA
Hiperatividade:     [ ] Típico  [ ] Alerta  [ ] NA
Impulsividade:      [ ] Típico  [ ] Alerta  [ ] NA
Transituacional:    [ ] Não     [ ] Sim → Ambientes: ___
Duração >6 meses:   [ ] Não     [ ] Sim
Sono:               [ ] Típico  [ ] Alterado
Prejuízo funcional: [ ] Não     [ ] Sim → Domínios: ___

═══ DIFERENCIAIS CONSIDERADOS ═══
[ ] Ansiedade  [ ] Sono  [ ] Ambiente  [ ] Outro: ___

═══ SEMÁFORO ═══
[ ] 🟢 ACOMPANHAR — retorno em ___
[ ] 🟡 CONDUZIR — retorno em ___, com: ___
[ ] 🔴 ENCAMINHAR — para: ___
[ ] 🚨 URGENTE — regressão identificada

Observações:
__________________________________________________
__________________________________________________

Orientações à família:
__________________________________________________

Médico(a): _________________ CRM: _______________
```

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*Manual Baldin de Rastreio — Dra. Karen Baldin*
*As perguntas certas para rastrear TEA e TDAH na consulta pediátrica.*
*© Escola aTempo · Clínica Neurodesenvolver*
